domingo, julho 23

ADEUS, MINHA CONCUBINA

As prostitutas não têm coração; os actores não têm moral. É o que se diz. Uma prostituta tem de viver a fingir sentimentos falsos na cama; um actor, ao subir todo empertigado para o palco, pode ser a personificação da virtude e da integridade. Pode desempenhar o papel de um imperador, de um estadista ou de um grande general. O palco é povoado de brilhantes jovens cultos e de belas damas cujas paixões exaltadas são mais fulgurantes do que a cor parda da nossa prosaica existência. A vida de todos os dias, comparada às histórias dessa gente fina, é como o rosto anónimo e pálido de um actor sem maquilhagem.
Sem um palco que lhe dê arrimo, um actor é apenas um homem comum com um rosto vulgar e ambições insatisfeitas. A sua força e poder provêm do artifício – assim como um feto retira alimento do corpo da mãe e a criança se agarra à sua mão, também o actor conta com os artifícios para viver. Do mesmo modo, há muito que as mulheres têm dependido dos homens para ser sustentadas, revelando, em troca, parte do segredo ilusório que constitui o seu encanto. Mas quanto disto é meramente encenação?
No final de contas, a vida não é mais do que uma peça teatral. Ou uma ópera. Seria mais fácil para nós todos se pudéssemos somente assistir às partes mais interessantes. Mas, em vez disso, temos de suportar os meandros tortuosos da intriga e os excruciantes momentos de emoção. Sentados na penumbra, somos alvo de vagas ameaças. É evidente que podemos levantar-nos e sair, mas os actores não têm escolha. E logo que a cortina sobe, têm de desempenhar os seus papéis do princípio ao fim. Não há nenhum sítio onde se possa esconder.

Lee, Lilian, "Adeus, Minha Concubina" ASA Editores - Livros de Bolso.


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