domingo, abril 22

BOA TARDE ÀS COISAS AQUI EM BAIXO

Não sei se ela disse
- Esta era a casa
ou
(se calhar)
- Há vinte anos nós
ou
(pode ser, não estou certo)
- Morei aqui
ou então não disse nada, limitou-se a subir da Muxima ao meu lado, talvez
um pouco à minha frente
(um pouco à minha frente)
fosse com uma varinha, fosse com um pedaço de cana na mão, quase sem
olhar para mim
(disso lembro-me)
como se passeássemos ainda que qualquer coisa nos seus gestos, na sua cara
(uma inquietação, uma expectativa, uma zanga)
afiançasse que não passeávamos nem meia através dos quarteirões que a
guerra destruíra
(e o mar à nossa esquerda, o mar lá em baixo sempre à nossa esquerda)
ela portanto à minha frente, devagar primeiro, atenta às cicatrizes dos canhões
sem recuo nas esquinas, ao abandono dos quintais, à piscina vazia em que os dentes
de um soldado morto continuavam a crescer, ela devagar primeiro, quase a correr
depois, esquecida de mim, largando a varinha ou o pedaço de cana, a correr não
como correm as brancas, como correm as pretas no meio das quais a criaram
(vide relatório anexo)
apesar da importância e da fortuna do tio, e ela menina, ela branca, a comer
funge de sanzala e a assar grilos num espeto, ela agora mulher no alto da colina
o mar à nossa esquerda, as traineiras, a ilha, tudo simétrico, alinhado, quieto,
ela à minha espera diante do que devia ter sido um muro e para além do muro
o que devia ter sido uma estufa de orquídeas, fragmentos de canteiros, escadas
de mármore
(metade de uma escada de mármore)
invadidos pela erva, afogados na erva, um dos pássaros gordos da marginal,
com um rato no bico, fugiu de nós meneando-se até voar a custo, ela a mostrar-
-me a fachada



LOBO ANTUNES, ANTÓNIO, in BOA TARDE ÀS COISAS AQUI EM BAIXO, EDITORA DOM QUIXOTE


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