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domingo, fevereiro 17

CRIME E CASTIGO



Ao entardecer de um dia muito quente de início de Julho, um jovem saiu do cubículo que subalugara na ruela S… e pôs-se a caminhar lentamente, como que indeciso, na direcção da ponte K…
Foi sorte ter evitado o encontro com a senhoria nas escadas. O cubículo era na água-furtada de um prédio alto, de quatro andares, e parecia mais um armário do que um compartimento. Pois bem, a senhoria que lhe subalugara o cubículo, com almoço e serviço incluídos, ocupava o andar situado abaixo dele um lanço de escadas e, sempre que acontecia o jovem sair para a rua, era inevitável passar ao lado da cozinha dela, com a porta quase sempre escancarada para o patamar. De cada vez que passava diante daquela porta, o rapaz tinha uma sensação cobarde e malsã que o envergonhava, e franzia a cara. Devia muito à senhoria, receava dar de caras com ela.
Não por ser pusilânime e assustadiço, pelo contrário; mas havia uns tempos que andava assim, num estado tenso, irritável, como na hipocondria. De tal modo se ensimesmara e isolara de toda a gente que já tinha medo de qualquer encontro, e não só com a senhoria. Pesava-lhe a pobreza, esmagava-o; contudo, até essa situação de aperto deixara de incomodá-lo, ultimamente. Deixou de tratar do dia-a-dia, nem queria pensar nesses problemas. No fundo, a senhoria não o assustava, fosse o que fosse que andava a tramar contra ele. Mas havia as escadas, parar, ouvir todos os disparates sobre todas as ninharias corriqueiras, de que não queria saber, todos aqueles assédios a exigir o pagamento, as ameaças, as queixas, e ainda ter de esquivar-se, desculpar-se, mentir - isso não, era melhor esgueirar-se como um gato pelas escadas, fugir sem ser visto por ninguém.
Desta vez, ao sair para a rua, até ficou espantado consigo por tanto medo de encontrar a credora.
Dostoiévski, Fiódor in Crime e Castigo, Editorial Presença

quinta-feira, outubro 18

O DUPLO

Eram quase oito da manhã quando o conselheiro titular Iákov Petróvitch Goliádkin acordou do seu longo sono, bocejou, se espreguiçou e, finalmente, abriu por completo os olhos. Ainda ficou mais dois minutinhos na cama, como uma pessoa que não tem a certeza absoluta de estar ou não estar acordada nem de saber se o que se passa à sua volta é a realidade ou a sequela dos desencontrados sonhos da sua noite. Rapidamente, porém, os sentidos do senhor Goliádkin começaram a captar com mais nitidez as normais e habituais sensações da manhã. Já se lhe apresentava familiar o verde-sujo das paredes poentas e fuliginosas do seu quartinho, e também a sua cómoda de mogno, as cadeiras a imitarem mogno, a mesa pintada de vermelho, o divã turco de oleado ruivo com florinhas verdes e, por fim, a roupa despida apressadamente na véspera e atirada num monte para cima do divã. Por último, espreitou-o da janela embaciada o dia outonal, cinzento, turvo e sujo, com uma careta tão zangada, tão azeda, que ao senhor Goliádkin se varreram as dúvidas de que não estava num reino de conto de fadas, mas na cidade de Petersburgo, a capital, na Rua Chestilávotchnaia, no terceiro andar de um prédio bastante grande, no seu próprio apartamento. Feita esta descoberta importante, o senhor Goiádkin fechou convulsivamente os olhos, como que lamentando a perda do sonho recente e desejando fazê-lo voltar por um bocadinho. Porém, não tardou um minuto e já pulava na cama, como se tivesse acertado finalmente no que tinha a fazer, depois de os seus pensamentos terem girado até àquele momento, dispersos e sem qualquer ordem, à espera de isso mesmo.
Dostoiévski, Fiódor in O DUPLO, Editorial Presença

quinta-feira, abril 26

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO

1 – O SUBTERRÂNEO




Sou um homem doente... Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite a medicina e os doutores. Além do mais, é intolerável como sou supersticioso; enfim, o suficiente para respeitar a medicina. (Sou bastantemente instruído para não ser supersticioso, mas sou supersticiosa.) Sim, é por maldade que eu não me trato. Aposto, meus senhores, que isto é uma coisa que não compreendeis. Mas eu,sim! Evidentemente, não serei capaz de explicar-vos a quem ando eu a tramar seguindo deste modo a minha maldade; sei perfeitamente que não ando a tramar os médicos quando recuso tratar-me; sou a pessoa mais bem colocada para saber que isso só a mim prejudica e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é por maldade. Dói-me o fígado. Tanto melhor, pois que me doa ainda mais!
Há muito tempo que vivo assim - vai para vinte anos. Agora tenho quarenta. Dantes era funcionário, agora já não. Era um funcionário mau. Grosseirão, era um gozo para mim sê-lo. Não aceitava luvas, estais a ver, tinha de ter a minha compensação – nem que fosse dessa maneira. (Má chalaça, mas não a risco. Ao escrevê-la, tinha em mente o efeito cómico; agora compreendo bastante bem que só queria fanfarronar, de uma maneira abominável – não risco nada, de propósito!) Às vezes os requerentes chegavam-se à minha mesa para uma informação, eu rangia os dentes à laia de resposta e sentia um gozo insaciável quando conseguia pô-los aflitos. Conseguia-o quase sempre.


Dostoiévski, Fiódor, in Cadernos do Subterrâneo edição Assírio & Alvim