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terça-feira, junho 15

"Pensar é a melhor forma de viajar"

Porque considera que “pensar é a melhor forma de viajar”, o escritor moçambicano Mia Couto chamou ao livro em que reuniu textos escritos para a revista de bordo das Linhas Aéreas de Moçambique “Pensageiro Frequente”.

quinta-feira, outubro 16

DESPEDIDA

Uma parte de mim
parte sem mim
e, assim, partida,
em mim nasce repartida,
ávida e sem fim,
a vida inteira, enfim.


Couto, Mia in idades cidades divindades edições Caminho

sábado, outubro 11

O POETA

O poeta não gosta de palavras
escreve para se ver livre delas.


A palavra
torna o poeta
pequeno e sem intervenção.


Quando
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.


Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.


Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.


O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.


Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.


Couto, Mia in idades cidades divindades edições Caminho

terça-feira, outubro 7

O OUTRO IDIOMA

Inquirido
sobre a sua fluência
em português, respondeu:


- Tenho duas línguas:
uma para mentir,
outra para ser enganado.


A professora
ainda perguntou:
- E qual delas é o português?


- Já não me lembro, respondeu.


Couto, Mia in idades cidades divindades, edições Caminho

sábado, outubro 4

O DITO PELO DITO

Antes eu dizia:
não me apetece nada
E mentia.


Agora, digo:
apetece-me o nada.
E me desminto
para não dizer a verdade.


Couto, Mia in idades cidades divindades, edições CAMINHO

sábado, setembro 20

idades cidades divindades





O TEMPO E SEUS SUSPIROS
Deito-me
para desinflamar
a angústia.
Aos poucos,
meu cansaço
vai perdendo convicção.
A velhice é uma insónia:
deitamo-nos
e quem dorme é a cama.
Couto, Mia in idades cidades divindades, edições Caminho

sábado, junho 14

Venenos de Deus Remédios do Diabo

O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com respeitos de quem estivesse penetrando num ventre. Está visitando a família de Bartolomeu Sozinho, o mecânico reformado de Vila Cacimba. À porta, a esposa, Dona Munda, não desperdiça palavra, nem despende sorriso. É o visitante quem arredonda o momento, inquirindo:
- Então, o nosso Bartolomeu está bom?
- Está bom para seguir deitado, de vela e missal…
A voz rouca parece distante, contrariada como se lhe custasse o assunto. O médico acredita não ter entendido. Ele é português, recém – chegado a África. Refaz a questão:
- Perguntava eu, Dona Munda, sobre o seu marido…
- Está muito mal. O sal já está todo espalhado no sangue.
- Não é sal, são diabetes.
- Ele recusa. Diz que se ele é diabético, eu sou diabólica.
- Continuam brigando?
- Felizmente, sim. Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor.


Couto, Mia in Venenos de Deus Remédios do Diabo edições Caminho

quarta-feira, março 14

O OUTRO PÉ DA SEREIA



- Acabei de enterrar uma estrela!
Foi assim que o pastor Zero Madzero se anunciou junto à cama de sua
esposa, Mwadia Malunga. Lá fora, espreitavam os primeiros sinais de luz. A
mulher, ainda emergindo do sono, sorriu e disse:
- Venha, marido, venha que eu lhe apronto um bom banho.
Olhou o homem em contraluz: parecia um fantasma, magro e sujo, carregando
mais poeira que o vento do Norte. Um cheiro a queimado se espalhou na
ensonada claridade do quarto.
- Trouxe os burros?
Ele acenou com a cabeça, como se estivesse bêbado. Quando Mwadia se aprontava para o encaminhar por entre as penumbras, o pastor deu um passoatrás e murmurou:
- Não me toque! Não me toque que tenho as mãos em fogo. Só então a esposa reparou no brilho que emanava das mãos fechadas de Madzero. Lentamente, ele entreabriu os dedos, um por um, como se desfolhasse uma flor. Mwadia Malunga levou o braço ao rosto, incapaz de enfrentar a reverberação. A sua voz esgueirou-se num gemido:
- Meu marido, me confesse: você já morreu?
- Não, tudo isto vem da estrela, mulher.
- Mas qual estrela?
- A estrela que enterrei no nosso quintal!
Couto, Mia in " O OUTRO PÉ DA SEREIA", Edição -Editorial Caminho.

domingo, julho 30

O último voo do flamingo

Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo o lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parado nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la.
Na nossa vila, acontecimento era coisa que nunca sucedia. Em Tizangara só os factos são sobrenaturais. E contra factos tudo são argumentos. Por isso, tudo acorreu, ninguém arredou. E foi o inteiro dia, uma roda curiosa, cozinhando rumores. Vocabuliam-se dúvida, instantaneavam-se ordens:
- Alguém que apanhe… a coisa, antes que ela seja atropelada.
- Atropelada ou atropilada?
- Coitado, o gajo ficou manco central!
A gentania se agitava, bazarinhando. Estava-se naquele, aparvalhamento quando alguém avistou, suspenso no céu, um boné azul.
- Olhem, lá, no cimo da árvore!
Era um desses bonés dos soldados das Nações Unidas. Pendurado num galho, balançava na vontade das brisas. No instante que e confirmou a identidade da boina foi como navalha golpeando a murmuração. E logo-logo a multidão se irresponsabilizou. Não valia a pena empernar na confusão. E gente se dispersou, imediata, comentando que nada acontecera, até admiravam tanto o que nunca haviam visto. E desfalavam:
-Agora é que vem aí chuva de molhar vento.
-Sim, é melhor voltarmos às vidas.
-Se emborem, pá!
E destroçaram, todos destrocados. Sobre o asfalto quente ficou o apêndice órfão. No ramo seco restou o chapéu missionário, plenamente só no meio das aragens. Azul em fundo azul.
Sobrei para ali, sozinho, com um estranho pressentimento. Em minha alma, um espinho me magoava. Eu, a dizer, retirava o fel do vinagre. Aquilo não era ainda o sucedimento, mas os preparativos de sua chegada. Quando o silêncio clareia é que se escutam os escuros presságios. Foi nesse momento que me surpreendeu voz, esbaforida:
-Está ser chamado!
-Chamado eu?
Couto, Mia "O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO" Editorial Caminho