Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Andrade, Eugénio in As Palavras Interditas Até Amanhã edições limiar
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domingo, junho 1
quinta-feira, novembro 29
Sobre a Razão
Num país que não conhece
sequer o sabor da sua própria nudez
erramos na noite sobre os membros
o peso obscurecido do desejo -
tão alta é a nossa razão
que somos nós a boca mais fresca do sol
Eugénio de Andrade
sequer o sabor da sua própria nudez
erramos na noite sobre os membros
o peso obscurecido do desejo -
tão alta é a nossa razão
que somos nós a boca mais fresca do sol
Eugénio de Andrade
sábado, novembro 17
MATINAL
Que seja fogo e suba ao cume
das águas seminais e duras,
e cante, invada, inunde
- juventude, juventude.
Euénio de Andrade
das águas seminais e duras,
e cante, invada, inunde
- juventude, juventude.
Euénio de Andrade
sábado, novembro 10
SOBRE UM CORPO
Sobre o teu corpo caio
daquele modo que o verão tem de espalhar os
cabelos
na água esparsa dos dias
e faz das peónias uma chuva de oiro
ou a mais incestuosa das carícias
Eugénio de Andrade
daquele modo que o verão tem de espalhar os
cabelos
na água esparsa dos dias
e faz das peónias uma chuva de oiro
ou a mais incestuosa das carícias
Eugénio de Andrade
segunda-feira, outubro 29
SOBRE O TEJO
Que soldado tão triste esta chuva
sobre as sílabas escuras do outono
sobre o tejo as últimas barcas
sobre as barcas uma luz de desterro
Já foi lugar de amor o tejo a boca
as mãos foram já fogo de abelhas
não era o corpo então dura e amarga
pedra do frio
Sobre o tejo cai a luz das fardas
É tempo de te dizer adeus
EUGÉNIO DE ANDRADE
sobre as sílabas escuras do outono
sobre o tejo as últimas barcas
sobre as barcas uma luz de desterro
Já foi lugar de amor o tejo a boca
as mãos foram já fogo de abelhas
não era o corpo então dura e amarga
pedra do frio
Sobre o tejo cai a luz das fardas
É tempo de te dizer adeus
EUGÉNIO DE ANDRADE
sábado, outubro 27
SOBRE AS GAIVOTAS
Ao inverno chega-se pela ausência das gaivotas
nos lábios e nas dunas:
não há outra estrada.
Isto sei,
ou como o sangue é branco sobre a erva:
mas não sei mais nada.
Eugénio de Andrade
nos lábios e nas dunas:
não há outra estrada.
Isto sei,
ou como o sangue é branco sobre a erva:
mas não sei mais nada.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, outubro 24
JUVENTUDE
Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.
Eugénio de Andrade
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, outubro 22
VIAGEM
Iremos juntos separados,
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, citilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
Esquecidos, lembrados, repetidos
na boca dos amantes que se beijam
no alto dos navios;
desfeitos ambos, ambos inteiros,
no rasto dos peixes luminosos,
afogados na voz dos marinheiros.
Eugénio de Andrade
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, citilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
Esquecidos, lembrados, repetidos
na boca dos amantes que se beijam
no alto dos navios;
desfeitos ambos, ambos inteiros,
no rasto dos peixes luminosos,
afogados na voz dos marinheiros.
Eugénio de Andrade
domingo, maio 6
POEMA À MÃE
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro
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