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terça-feira, janeiro 31

Momento

Foto: Mark Arbeit

Chegado o momento

em que tudo é tudo

dos teus pés ao ventre

das ancas à nuca

ouve-se a torrente

de um rio confuso

levanta-se o vento

Comparece a luz

Entre línguas e dentes

este sol nocturno

Nos teus quatro membros

de curvos arbustos

lavra um só incêndio

que se torna muitos

Cadente silêncio

sob o que murmuras

Por fora por dentro

do bosque do púbis

crepitam-me os dedos

tocando alaúde

nas cordas dos nervos

a que te reduzes

Assim o movimento

em que tudo é tudo

Mais concretamente

água fogo música

David Mourão Ferreira


quarta-feira, janeiro 11

OS CAVALOS



Que venerável campo que era o mundo!
Que venerável campo!
E nós que lhe fizemos?
Nas escarpas
nos cômoros
nos vales
já não levantam ouro os cascos dos cavalos!

(Esses aí puxavam
a quadriga de ApoIo.
Ficaram sem emprego: o Sol está parado.
Além, o Rocinante. O Pégaso, mais alto.
Limitam-se ao convívio
dos outros reformados:
os cavalos solenes dos enterros
os cavalos festivos das paradas
os cavalos heróicos das batalhas!)

Cavalos, ah! somente o vento vos cavalga!
E são bandos, são tantos e são tristes
sem cavaleiros, nem sequer fantasmas!
(Faltam, contudo, quatro.
De Quatro Cavaleiros que hão-de vir.
A promessa é formal e serão quatro.
Quatro.
Quando virão
remir-nos e remir-vos?)
E entanto que merecido insulto se preferissem
a seus corcéis de luz
quatro aviões a jacto!


David Mourão Ferreira, in Canto IV - Os Quatro Cantos do Tempo