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segunda-feira, março 11
Livro do Desassossego
"Sumir-me-ei entra a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho
do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo."
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Bernardo Soares,
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domingo, janeiro 25
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«Quero-te só para sonho», dizem à mulher , amada em versos que lhe não enviam, os que não ousam dizer-lhe nada. Este «quero-te só para sonho» é um verso de um velho poema meu. Registo a memória com um sorriso, e nem o sorriso comento.
Bernardo Soares
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sábado, janeiro 10
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É legítima toda a violação da lei moral que é feita de obediência a uma lei moral supeior. Não é desculpável roubar um pão por ter fome. É desculpável a um artista roubar dez contos para garantir por dois anos a sua vida e tranquilidade, desde que a sua obra tenda a um fim [...]; se é uma mera obra estética, não vale o argumento.
Bernardo Soares
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quinta-feira, janeiro 1
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Um hálito de música ou de sonho, qualquer cousa que faça quase sentir, qualquer cousa que faça não pensar.
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segunda-feira, dezembro 8
Trovoada
Este ar baixo de nuvens paradas. O azul do céu estava sujo de branco transparente.
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do embrulho eterno…
«Como está[…]», comenta estatisticamente.
Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Sentiu-se, prolongadamente, como um mal-estar de tudo, um suspender cósmico da respiração. Parara o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A treva encarvoou-se de silêncio.
Súbito, aço vivo…
Que humano era o toque metálico dos eléctricos! Que paisagem alegre a simples chuva na rua ressuscitada do abismo!
Oh, Lisboa, meu lar!
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do embrulho eterno…
«Como está[…]», comenta estatisticamente.
Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Sentiu-se, prolongadamente, como um mal-estar de tudo, um suspender cósmico da respiração. Parara o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A treva encarvoou-se de silêncio.
Súbito, aço vivo…
Que humano era o toque metálico dos eléctricos! Que paisagem alegre a simples chuva na rua ressuscitada do abismo!
Oh, Lisboa, meu lar!
Bernardo Soares
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quinta-feira, novembro 13
domingo, novembro 9
sábado, maio 17
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Sociologia - a inutilidade das teorias e práticas políticas.
Soares, Bernardo
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sexta-feira, maio 16
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Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.
Soares, Bernardo
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quarta-feira, maio 14
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O dinheiro é belo, porque é uma libertação.
Soares, Bernardo
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domingo, maio 11
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Ah, é um erro doloroso e crasso aquela distinção que os revolucionários estabelecem entre burgueses e povo, ou fidalgos e povo, ou governantes e governados. A distinção é entre adaptados e inadaptados: o mais é literatura, e má literatura. O mendigo, se é adaptado, pode amanhã ser rei, porém: perdeu com isso a virtude de ser mendigo. Passou a fronteira e perdeu a nacionalidade.
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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domingo, janeiro 13
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"Quando vivemos constantemente no abstracto - seja o abstracto do pensamento, seja o da sensação pensada -, não tarda que, contra nosso mesmo sentimento ou vontade, se nos tornem fantasmas aquelas coisas da vida real que, em acordo com nós mesmos, mais deveríamos sentir."
Bernardo Soares
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segunda-feira, dezembro 17
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"Dia de Natal (Humanismo. A «realidade» do Natal é subjectiva. Sim, no meu ser. A emoção, com, veio, passou. Mas um momento convivi com as esperanças e as emoções de gerações inúmeras, com as imaginações mortas de toda uma linhagem morta de místicos.
Natal em mim!)
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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sábado, dezembro 15
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"A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior."
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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segunda-feira, dezembro 10
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Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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quarta-feira, dezembro 5
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Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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domingo, dezembro 2
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"Querer ir morrer a Pequim e não poder é das cousas que pesam sobre mim como a ideia dum cataclismo vindouro."
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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segunda-feira, novembro 19
Frase do Dia
"Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.
Fonte: "Livro do Desassossego"
Tema: Vida
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domingo, novembro 18
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"Tudo quanto buscamos,buscamo-lo por uma ambição, mas essa ambição ou não se atinge, e somos pobres, ou julgamos que a atingimos, e somos loucos ricos.
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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sábado, setembro 15
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Quando vivemos constantemente no abstracto - seja o abstracto do pensamento, seja o da sensação pensada - , não tarda que, contra nosso mesmo sentimento ou vontade, se nos tornem fantasmas aquelas coisas da vida real que, em acordo com nós mesmos, mais deveríamos sentir.
Soares, Bernardo in Livro do Desassossego
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