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terça-feira, julho 4

As Cidades Invisíveis

O condutor de camelos que vê aparecer no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, esvoaçar nos aeroportos as mangas de vento brancas e vermelhas, deitar fumo as chaminés; pensa num navio, sabe que é uma cidade mas pensa-a como uma nau que o leva para fora do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento já a inchar-lhe as velas ainda não desfraldadas, ou um vapor com a caldeira a vibrar na querena de ferro, e pensa em todos os portos, nas mercadorias do ultramar que os guindastes descarregam nos cais, nas tabernas onde tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas nas cabeças uns dos outros, nas janelas iluminadas dos rés-do-chão das casas, cada uma com uma mulher a pentear-se.
Por entre o nevoeiro da costa o marinheiro distingue a forma de uma bossa de camelo, de uma sela bordada de franjas cintilantes entre duas bossas sarapintadas que avançam a balançar, sabe que é uma cidade mas pensa-a como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforges cheios de frutas cristalizadas, vinho de palmeira, folhas de tabaco, e já se vê à cabeça de uma longa caravana que o leva para fora do deserto do mar, a caminho de oásis de água doce à sombra serrilhada das palmeiras, para palácios de grossas paredes caiadas, de pátios com mosaicos em que dançam descalças as bailarinas, e movem os braços um pouco dentro e um pouco fora do véu.
Todas as cidades recebem a sua forma do deserto a que se opõem; e é assim que o condutor de camelos e o marinheiro vêem Despina, cidade de fronteira entre dois desertos.
Calvino, Italo "As Cidades Invisíveis" Editorial Teorema, 1995

quarta-feira, junho 14

Palomar

Acerca dos jovens


Numa época em que a intolerância dos mais velhos em relação aos jovens e do jovens em relação aos mais velhos chegou ao cúmulo, em que os mais velhos não fazem outra coisa senão acumular argumentos para dizerem finalmente aos jovens aquilo que eles merecem, e os jovens não esperam mais do que estas ocasiões para demonstrarem que os mais velhos não percebem nada, o senhor Palomar não consegue articular uma palavra. Se por vezes, tenta intervir, apercebe-se de que todos estão demasiados acalorados com as teses que estão a defender para ligarem àquilo que ele está a tentar esclarecer a si próprio.
O facto é que ele, mais do que afirmar uma sua verdade, desejaria fazer algumas perguntas, e percebe que ninguém quer sair dos binários do seu próprio discurso para responder a perguntas que, sendo provenientes de um outro discurso, obrigariam a repensar as mesmas coisas com outras palavras, e até mesmo a encontrar-se em territórios desconhecidos, longe dos percursos seguros. Ou então desejaria que as perguntas as fizessem os outros a ele; mas a ele também lhe agradariam apenas algumas perguntas e não outras: aquelas a que responderia, dizendo as coisas que sente que pode dizer, mas que apenas poderia dizer, se alguém lhe pedisse para as dizer. De qualquer modo, ninguém sonha sequer perguntar-lhe seja o que for.
Estando as coisas neste pé, o senhor Palomar limita-se a ruminar em silêncio sobre a dificuldade de falar aos jovens…
Calvino,Italo, "PALOMAR", Lisboa: edotirial teorema, 1987.